É estranha a esquizofrenia nacional à volta do que pode ser colectivo . Vivemos hoje entre: "dou tudo porque precisam"; "vou guardar para o vizinho não ver"; "vou votar no "ídolo" que todos gostam"; "não te deixo passar na fila, espertinho"; "prendam-no que é ladrão"; "coitado que o tentaram entalar"; e por aí adiante...Por um lado, dificilmente partilhamos as nossas coisas, objectos, ideias, visões; por outro, por pena, damos tudo o que temos e não temos e unimo-nos para ajudar- sempre pontualmente, claro.
O espírito colectivo morreu à nascença quando, no pós-25 de Abril, uns convenceram outros mais, de que era na partilha e na comunhão dos bens que estava a realização do Homem - era algo contra o que metade do Mundo lutava mas que era novo em Portugal. Acredito na boa vontade de quem aderiu a tal pensamento, na sua sinceridade, na forma como seguiram quem lhes trazia essas novidades e se extasiavam com as ilustrações exemplares e vivas de uma URSS ou China, cujos arquétipos sociais eram a revelação da igualdade. Gostando ou não, nessa altura quem acreditou, seguiu e entregou-se. Sim, depois, desiludiu-se e deixou de acreditar. O importante, nesta reflexão, é que a maioria das pessoas acreditava que algo de bom viria, que as ideias que escutavam faziam sentido, quem o dizia merecia a sua confiança e, algumas, estavam certas. Quem os guiava acreditava no que expunha, o seu entusiasmo incendiava o publico, e era fácil. Eu disse "algumas". Pois bem, é aqui que reside o problema. Algumas são sempre poucas e a maior parte tarde percebeu que sob a ideologia apregoada pelos líderes existia uma milícia que actuava em proveito próprio e que, mais tarde ou mais cedo, se tornou evidente o seu propósito.
Criaram-se dois monstros: um a desconfiança a tudo que soe a ideologia e outro a repulsa ao que possa ser colectivo. Em termos práticos, os ideólogos do comum e colectivo negaram a sua origem e deixaram orfãos os seus filhos.
Os líderes de hoje pensam de forma individual e isso transparece para quem escuta e observa. Não nos esqueçamos que muitos destes foram os tais "milicianos" e as pessoas ainda se recordam dos seus bigodes e cabelo comprido. Ainda bem! A nova geração de políticos tem que retomar a ideologia, tem que ser sincera e verdadeira no que diz, ou seja, acreditar na sua visão do país. Mostrar que conhece bem as suas limitações mas que não tem duvida onde quer chegar e que caminho deve trilhar para o conseguir. Só assim retomaremos o espírito colectivo e conseguiremos, com um líder, caminhar num mesmo sentido e evoluir. Caso contrário termos um país desconfiado, com a cabeça metida no rebanho sem saber para onde o levam, passeando à roda sem sair do mesmo sitio, a pisar e rapar a pastagem, sem ver onde está o novo cercado.